Estamos argumentando seriamente, mas, se não quiserem conceder-me sua atenção, não hei de me humilhar. Tenho meu subsolo.
- Memórias do Subsolo
Dostoievski






Vídeo da vez...

 

jacobvanloon:

working out some possibilities today - another one of those sessions where the resolve is to generate more questions. 

larcavodica:

 

 

 

caminha agora pelo planeta

uma gente que é

e que é só amor arável

gentes de gentis chiados

no hálito da linguagem esticada

para dentro e para fora da terra

 

é da desesperança maior

saber e não

sentir na caixa  

algum farol desajuizado

iniciando-se a formigar

 

 

 

 

 

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O realismo antinatural de Manderlay

Texto meu =)

ritmodissoluto:

Algumas considerações sobre o enredo
Por que os negros de Manderlay ainda são escravos em 1933?

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WILHELM: Temo não estarmos preparados para uma vida totalmente nova. Em Manderlay os escravos jantam às 19h. A que horas as pessoas jantam quando são livres? Não sabemos essas coisas.

A empresa livre de Manderlay

Texto meu =)

ritmodissoluto:

Considerações estéticas

"Você não está interessada em nós. Não como seres humanos. Afinal, é difícil distinguir as pessoas quando elas são de outra raça."

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Manderlay (2005) do diretor Lars Von Trier traz a tona a segregação racial e o preconceito contra negros dentro da sociedade norte-americana. Nessa alegoria, Manderlay é uma fazenda onde negros supostamente aceitam passivamente a escravidão, mesmo 60 anos depois da abolição, e são submissos à opressão da “casa grande”. Qualquer filme carrega em si uma multiplicidade de significação que é inerente a toda obra de arte e em Manderlay, onde a linguagem cinematográfica é desconfigurada, as possibilidades de encontrar caminhos de leitura nessa narrativa se intensifica. Em Manderlay nada é real, é uma fazenda invisível e os atos só acontecem se o espectador aceitar essa irrealidade e entregar sua imaginação para a fotografia do filme. Lars Von Trier subverte a linguagem para produzir seu próprio realismo antinatural.

Manderlay é a continuação de Dogville (2003). Ambos filmes tem a política como assunto central de suas tramas: como o poder se manifesta num contexto de vulnerabilidade econômica e social. Sendo continuação, Manderlay conserva a mesma personagem principal, Grace (embora uma outra atriz faça esse papel), o mesmo narrador e o mesmo tipo de cenografia, ou ausência de cenário. Em Manderlay as tensões políticas são mais evidente porque Grace deixa de ser o centro da história, a pergunta que move este filme é “por que os negros da fazenda Manderlay são ainda escravos em 1933?”. Já em Dogville a pergunta gira em torno da própria persoagem “por que Dogville deve proteger Grace sendo que eles nem sabem quem é essa mulher e não sabem de quem e por que ela está fugindo?”.

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Essa reorientação narrativa tem um papel fundamental no próprio desenvolvimento da personagem. Se em Dogville há uma comoção por Grace quando presenciamos o aniquilamento de sua individualidade pelos habitantes da vila, em Manderlay há um contínuo e sutil processo de desconstrução da personagem. As experiências de Dogville obviamente deixam marcas profunda em Grace, sabemos que ela jamais esquecerá de que não há justiça sem o uso do poder e das armas. Grace se torna fria e inflexível. A personalidade da personagem já não é um mistério, conhecemos seu caráter e espirito liberal e não corremos mais o risco de psicologizar todo seu drama. Agora ela é uma força ativa que confronta contra todos que não aceitam seus princípios. 

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O espectador que chega em Manderlay já aceitou a desconfiguração cênica do filme e sabe que ele é observador ativo das ações das personagens. Há uma câmera sempre nervosa, uma montagem repleta de cortes abruptos. Entre close e plongée, a fotografia passa constantemente entre os ombros e rosto das personagens nos dando a sensação de sermos intrusos naquele lugar.

Certos que o espectador conhece Grace e está acostumado com essa estética fílmica, Lars libera o narrador para tecer comentários e dar opiniões sobre os acontecimentos da fazenda Manderlay. A quantidade de forças que entram em conflito naquela fazenda torna o enredo complexo e amplifica em cada personagem e em cada cena suas funções alegórica. Por isso esse filme consegue ser impactante quando os dramas individuais das personagens se voltam contra Grace levando-a à um final cômico, tão diferente da apoteose catártica de Dogville.

Depois da suspensão naturalista que o filme nos projeta, a fotografia volta ter seu carácter documental e de representação do real: nos créditos finais ao som da música Young Americans de David Bowie, diversas fotografias de jornalismo sobre a condição do negro e da luta contra a discriminação racial dentro da sociedade americana são expostas, fazendo uma ponte para ligar o universo criado por Lars Von Trier ao mundo real.

Mas afinal, Porque os negros da Fazenda Manderlay são ainda escravos em 1933? Essa pergunta precisa ser respondida senão de nada vale assistir a esse filme. Mesmo que não seja possível trazer uma resposta conclusiva a essa pergunta, ela precisa ser problematizada. Após essas considerações sobre a estética do filme, vou tentar responder essa pergunta em outros textos explorando as alegorias representadas pela Grace, pelos negros e pela “mão auxiliadora” e entrar no enredo de Manderlay.

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